quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo!!!

Chegamos ao fim de 2009. Espero que em 2010 possamos animar este blog com mais postagens e mais colaborações dos queridos leitores. Desejo a todos um Feliz Ano Novo! Que 2010 nos traga muita saúde, humanidade e realizações.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A primeira década do século XXI

Lá se vai mais uma década. A primeira do século XXI! Por falar nisso, uma coisa me deixa intrigado: um século sempre começa em 1 e termina em zero, certo? Quer dizer, quando nos referimos aos séculos XIX, XX e XXI, estamos tratando dos seguintes períodos, respectivamente, 1801 a 1900, 1901 a 2000 e 2001 a 2100. Mas quando nos referimos às décadas de 30, 40 e 50 (do século passado, por exemplo), queremos abordar os anos que se transcorreram de 1930 a 1939, 1940 a 1949 e 1950 a 1959, respectivamente. Ou seja, ao contrário dos séculos, as décadas começam em zero e terminam em 9. E não é só isso o que me confunde. Outra coisa é o nome que damos às décadas, pois à quinta década do século chamamos de Década de Quarenta. À quarta, chamamos de Década de Trinta. Década de Vinte é como denominamos a terceira. Para a segunda década podemos recorrer a uma expressão menos usual: Década de Dez. Mas... e a primeira década do século? Década de Zero???

Bom, li recentemente numa revista semanal que a primeira década define todo o século. Pois é, a partir dessa informação já dá pra perceber o quanto a revista é ruim. Se fosse como ela diz, um dos maiores historiadores do mundo, Eric Hobsbawm, não teria dito que o século XX começou em 1914. Independente de quem estiver certo, acredito que esta primeira década encheu o mundo de grandes esperanças (apesar de muitas frustrações) e que as melhores expectativas criadas nos últimos dez anos possam se concretizar nos próximos dez. Enfim, que o mundo se torne um lugar melhor para se viver.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Mitologia política: a Torre de Babel

Na segunda postagem da série Mitologia Política, recorro às sagradas escrituras, especificamente ao capítulo 11 do Livro do Gênesis, que narra o apogeu e queda da Torre de Babel, construída pelos homens para alcançarem os céus. Até então, em toda a terra havia somente uma língua. Mas, para impedir que os homens atingissem sua meta, Deus os confundiu a linguagem de tal modo que eles não podiam mais compreender uns aos outros. Assim os homens se dispersaram pela terra e deixaram de construir a cidade e a torre. Esta é a explicação criacionista para os diversos idiomas, países e culturas existentes sobre a Terra.
Desde o dia 7 deste mês, representantes de várias nacionalidades estão reunidos em Copenhague no maior evento climático da história da humanidade. Em princípio, a linguagem é uma só: salvar o planeta - mas, entre tantos interesses e idiomas, essa meta comum está constantemente ameaçada de se dissipar em favor de negociações que só vão postergar as tentativas de reverter o acelerado aquecimento global.
Os debates já duram duas semanas e, até agora, as notícias são de que houve pouco progresso no sentido de ampliar ou substituir o Protocolo de Kyoto, acordo atualmente em vigor. Essa letargia que parece ter tomado conta da convenção de Copenhague tem causado a frustração dos represenates dos estados mais pobres e vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Os protestos dos ativistas, os conflitos entre polícia e manifestantes têm tomado conta das ruas da capital dinamarquesa.
Amanhã, cerca de 115 governantes tentarão chegar a um acordo definitivo. Esperamos que, desta vez, Deus esteja a favor dos homens.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Asterix cinquentão!

Há 50 anos, o desenhista Albert Uderzo e o roteirista René Goscinny criaram o personagem Asterix, que estreou no primeiro número da revista Pilote, publicação francesa especializada em histórias em quadrinhos (1959-1989). O primeiro álbum (Asterix, o Gaulês) saiu em 1961, iniciando uma série que, em 2009, completou 34 volumes. A reboque do sucesso crescente, vieram os filmes de animação (a partir de 1967), o parque temático nos moldes da Disneylândia (fundado em 1989 a 30km de Paris) e as adaptações para o cinema (1999, 2002 e 2008), além dos diversos álbuns especiais.
As aventuras de Asterix e seu inseparável amigo Obelix se passam por volta do ano 50 a.C., quando toda a Gália estava sob a dominação romana. Toda?... Exceto uma pequena aldeia litorânea, irredutível às pretensões de César. Sob o efeito da poção mágica preparada pelo druida Panoramix, os guerreiros da aldeia adquirem uma força sobre-humana e, sob a liderança do chefe Abracurcix, resistem ao poderio bélico do império.
A ironia perspicaz dos autores e o carisma dos personagens conquistaram uma multidão de fãs pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil. Contudo, a qualidade do trabalho de Uderzo e Goscinny não os eximem de muitas análises equivocadas e algumas críticas. De um lado, Asterix e seus amigos são confundidos com uma metáfora anti-imperialista (ou anti-americana se pensarmos na dominação cultural exercida pelos Estados Unidos na segunda metade do século XX). De outro lado, a aldeia gaulesa parece evocar um passado romântico da França pura - perspectiva que leva a considerar um possível sentido xenofóbico e ufanista das aventuras de Asterix.
Para mim, essas duas vertentes apresentam sinais de uma leitura apressada das histórias de Uderzo e Goscinny. Para começar, o humor tipicamente francês dos autores, baseado em estereótipos, recai não somente sobre os não gauleses, mas também (e principalmente) sobre eles próprios. Há referências ao ímpeto militarista dos godos (alemães), à pachorrice dos bretões (ingleses), à ardência dos hispânicos (espanhóis), à baixa estatura dos lusitanos (portugueses), mas também às manias e atributos dos franceses: os normandos comem tudo com creme, os corsos são preguiçosos, os lutecianos (parisienses) são arrogantes e presunçosos e os habitantes do interior são provincianos e melindrosos. Em Uma Volta pela Gália (1965), se não me engano, o tabu de não se poder falar sobre a Batalha de Alesia (quando os gauleses foram finalmente vencidos e seu líder, Vercingetorix, foi obrigado a depor suas armas aos pés de César) é uma paródia ao tabu dos bonapartistas contemporâneos de não se falar em Waterloo.
Pensar numa França antes dos francos e dos romanos é mais uma estratégia de salientar os estereótipos locais, é mais um artifício de auto-ironia do que auto-vanglória. Além do mais, embora nascidos na França, os autores são filhos de imigrantes - Uderzo tem ascendência italiana e os pais de Goscinny eram russos-poloneses.
Outra coisa impossível de atestar é o suposto anti-americanismo das histórias de Asterix. Em entrevistas, Uderzo já cansou de repetir sua admiração pelos quadrinhos americanos e destaca sempre a influência que recebeu da obra de Walt Disney. Nas aventuras de Asterix, há frequentes referências ao cinema, à música e à literatura de diversos países, principalmente dos Estados Unidos: em Asterix e Cleópatra (1965), a simpática rainha dos egípcios é inspirada em Elizabeth Taylor; em Odisséia de Asterix (1984), o espião Zerozerossix é uma caricatura de Sean Connery, que interpretou James Bond.
Na realidade, o que marca a obra de Uderzo e Goscinny é uma certa alienação política. Foram sempre artistas bastante integrados às formas de produção cultural vigentes e, talvez por isso (a despeito do enorme público no Brasil), não tenham influenciado tanto o trabalho dos quadrinhistas brasileiros da década de 1970 para cá, muito mais interessados naquilo que Robert Crumb e os quadrinhos underground tinham para oferecer.
Apesar desse coformismo, há nas aventuras de Asterix alguns solavancos satíricos deliciosos, como em Obelix & Companhia (1976), que traz uma suave crítica ao consenso neoliberal e ao fetichismo da sociedade de consumo. Este volume, cuja leitura eu recomendo, é o último da parceria de Uderzo e Goscinny. O roteirista faleceu em 1979 e Uderzo continuou a escrever e desenhar as histórias solitariamente. No entanto, apesar de ter criado aventuras divertidas, não conseguiu suprir a verve humorística de Goscinny.
No apagar das luzes do Ano da França no Brasil, fica aqui minha homenagem ao cinquentenário de Asterix e seus amigos. O trigésimo quarto volume da série (capa acima), lançado este ano, comemora o aniversário desses heróis.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Bacalhoada e urubuzada!!!

Alguns dias atrás eu disse que futebol não é um assunto corrente neste blog. Ainda está em tempo de corrigir essa observação, especialmente porque há muitas relações entre o esporte mais popular do mundo e os temas principais que venho abordando aqui. Mas apesar do que foi sugerido no título, alerto que esta postagem não trata exatamente da conquista do Flamengo algumas horas atrás.
Aproveito essa oportunidade para falar de um cartunista mineiro e flamenguista de carteirinha, que precisaria ter vivido 65 anos para poder comemorar o hexacampeonato do time. Infelizmente, pelas tristes razões que todos conhecem, Henrique de Souza Filho, mais conhecido como Henfil, faleceu em 1988, quando o time possuía quatro títulos nacionais.
Apesar da curta trajetória, Henfil trabalhou o suficiente para se tornar um dos maiores cartunistas brasileiros, um símbolo da luta pela democracia e um artista versátil e muito influente na cultura e na sociedade brasileiras.
Henfil tinha um modo muito peculiar de observar o futebol. Uma das suas contribuições foi a de politizar os clubes, principalmente os cariocas. Quando chegou ao Rio de Janeiro, em meados da década de 1960, foi trabalhar no Jornal dos Sports. Ali, começou a criar histórias com os personagens Urubu (ao lado), Bacalhau, Pó-de-Arroz e Cri-Cri, que representavam, respectivamente, as torcidas do Flamengo, do Vasco, do Fluminense e do Botafogo. Assim foi que o cartunista dividiu os torcedores entre a "Ipanema Beach" (que reunia a "elite tricolor" e a "burguesia botafoguense") e a "República Popular de Ramos", (conjugando as massas flamenguista e vascaína) numa verdadeira luta de classes. Os fluminenses, tradicionalmente conhecidos como pós-de-arroz, apareciam nos desenhos de Henfil como um janota soberbo e afrescalhado. Já os botafoguenses, surgiam na figura de um almofadinha pusilânime.
Com os trabalhos de Henfil, os apelidos "urubu" e "bacalhau" (que antes eram insultos utilizados pelos adversários) passaram a ser adotados pelas próprias torcidadas do Flamengo e do Vasco. No primeiro caso, os flamenguistas logo substituíram o Popeye (antigo mascote) pela ave de penugem negra - uma óbvia identificação com a origem popular dos torcedores.
Enfim, fica aqui a homenagem ao Clube de Regatas Vasco da Gama pela merecida promoção à primeira divisão do futebol brasileiro e ao Clube de Regatas Flamengo pelo grande título de Campeão Brasileiro de 2009. Acho que Henfil gostaria de ver o aperto pelo qual passaram Botafogo e Fluminense neste ano. E também ficaria satisfeito com o resultado final, sabendo que no ano que vem os quatro grandes do Rio estariam novamente juntos na Primeira Divisão do Brasileirão.