O DESPERTAR MÍTICO DE UMA PROVÍNCIA
O riso dos leitores tinha uma justificativa útil: corrigir os erros da sociedade paulistana, torná-los ridículos para eliminá-los. Através das caricaturas e sátiras, podemos perceber o que os responsáveis pela publicação do Cabrião e seus possíveis leitores reconheciam como ridículo naquela sociedade, atribuindo valores e expectativas a esse reconhecimento. Seus adversários, as autoridades provinciais e o próprio povo eram tornados ridículos com fins políticos, mas o mais importante talvez seja o fato de que muitos aspectos da realidade vivida por aquela sociedade estavam distantes dos ideais abstratos criados pela cultura séria, por isso provocavam o riso e geravam formas alternativas de conceber aquela mesma realidade.
O processo contra o "Cemitério da Consolação em dia de finados" terminou antes que se completasse a primeira quinzena de dezembro daquele mesmo ano. Não durou mais do que algumas semanas. Serviu, contudo, para gerar certo alvoroço na pequena capital da província de São Paulo, fato que os responsáveis pela publicação souberam explorar, publicando, no decorrer do processo, algumas pequenas caricaturas sobre o assunto.
Findo o processo, o Cabrião deu um baile aos mortos em comemoração a sua absolvição no 12º número do jornal, publicado em 16 de dezembro daquele ano. Na caricatura, mais do que simples comemoração, celebrava-se a assunção do artista à posição verdadeiramente crítica que este assumia na sociedade burguesa.
ANGELO AGOSTINI (CARICATURA SEM TÍTULO)
CABRIÃO, 12 (16/12/1866)
O personagem Cabrião aparece ao centro, sentado num trono com um lápis litográfico na mão direita. Em todo o salão uma enorme festa: os mortos dançam, comem e bebem alegremente. A legenda diz: "Grande baile dado aos mortos pelo Cabrião em aplauso à feliz terminação de seu processo. (O Cabrião é um inimigo leal; perdoa as amolações, porque também amola. Só não perdoa os delatores)." A cena é absurda, porque traz mortos de volta à vida – dançando, comendo, bebendo e fazendo tudo o que os vivos podem fazer. Mas também possui um conteúdo moral: a redenção oferecida pelo jornal e a liberdade do povo como conquista da ação do artista/jornalista.
Podemos pensar esta imagem como toda a sociedade paulista – as transformações econômicas, sociais e culturais trazidas com a urbanização tiravam a pequena capital da província de sua sepultura secular (o “sono colonial”, ao qual se refere Ernani Silva Bruno).
O responsável por essa exumação civilizatória era o intelectual (bacharel/artista/jornalista), que teria por função libertar o indivíduo, torná-lo dono de si próprio e de sua propriedade, castigando todos os costumes que atentassem contra esses princípios morais. Sobre o personagem Cabrião, ergue-se um emblema composto pela paleta de pintura, a pena, a palmatória, o lápis litográfico e o barrete frígio. A insígnia apresenta seus componentes como armas, dando ênfase ao aspecto de ataque, de ação ofensiva na lide política: a pena é o símbolo da escrita, da prática jornalística; o lápis litográfico representa a arte, a arma do caricaturista; a palmatória, símbolo do castigo, da correção; e o barrete frígio, sobre todos os demais, simboliza a liberdade.
Na parte mais superior, o célebre provérbio: rindo, castigam-se os costumes.
Mais do que celebrar o resultado do processo, a caricatura exibe o triunfo do artista/jornalista quando os princípios da moralidade pública suprimem o discurso clerical na sociedade burguesa em formação, que (como os esqueletos no salão) festeja sua libertação do jugo religioso.
O papel de formar a consciência dos cidadãos naquela sociedade deveria ser reservado ao artista/jornalista, que de sua posição privilegiada assistia a todos os movimentos que se articulam naquela complexa existência, sendo o único capaz de censurar os maus costumes, uma vez que seguia critérios superiores pela noção de moralidade pública.
Mais do que celebrar o resultado do processo, a caricatura exibe o triunfo do artista/jornalista quando os princípios da moralidade pública suprimem o discurso clerical na sociedade burguesa em formação, que (como os esqueletos no salão) festeja sua libertação do jugo religioso.
O papel de formar a consciência dos cidadãos naquela sociedade deveria ser reservado ao artista/jornalista, que de sua posição privilegiada assistia a todos os movimentos que se articulam naquela complexa existência, sendo o único capaz de censurar os maus costumes, uma vez que seguia critérios superiores pela noção de moralidade pública.
