quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ângelo Agostini: 100 anos depois

Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à Corte (1869)
Em janeiro de 1910 falecia Ângelo Agostini, caricaturista italiano que viveu no Brasil do final da década de 1850 até sua morte. Apesar da grande relevância que teve no cenário artístico e político brasileiro, entre o fim do Império e o princípio da República, a notícia do seu falecimento não teve repercussão à altura, muito provavelmente abafada pela morte de seu amigo Joaquim Nabuco, poucos dias antes.
Hoje, tem início um evento no Rio de Janeiro, organizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa, cuja finalidade - mais do que celebrar o centenário e reunir pesquisadores interessados em sua vida e obra - parece querer também reparar essa dívida com a nossa memória política, artística e jornalística. O Seminário Ângelo Agostini: 100 anos depois contará com a presença de estudiosos de áreas variadas (História, Antropologia, Belas Artes, Design, Comunicação, Documentação), que durante três dias apresentarão seus trabalhos e colocarão no centro do debate questões relacionadas à trajetória de Ângelo Agostini e sua militância na imprensa e nas artes.
Infelizmente, eu sou um pobre peão que não poderá estar presente a esse evento. Mas já que eu mantenho aqui este humilde blog, posso participar dessas celebrações pelo centenário de morte do Agostini publicando um breve textinho. Aliás, já publiquei um no início do ano só para traçar uma pequena biografia do artista. Agora, escolho, entre tantos temas possíveis relacionados a ele, o das histórias em quadrinhos.
Ângelo Agostini é considerado o precursor dos quadrinhos no Brasil. Os mais empolgados, colocam-no como o precursor dos quadrinhos no Mundo, mas a este título concorrem outros nomes também importantes. Um deles é o alemão Wilhelm Busch, autor de Juca e Chico (1865), traduzido no Brasil por Olavo Bilac. Outro é o suíço Rudolph Töpffer, que publicou várias histórias ilustradas entre as décadas de 1830 e 1840. Ângelo Agostini está entre eles, embora os debates sobre o que constitui uma HQ ainda sejam um campo não completamente resolvido. Os americanos, por exemplo, definiram critérios para estabelecer que seu compatriota Richard F. Outcault teria sido o verdadeiro criador das histórias em quadrinhos, no finalzinho do século XIX.
As aventuras de Zé Caipora (1883)
O que coloca Agostini nesse panteão é a série Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à Corte, que conta a "saga" de um caipira em visita ao Rio de Janeiro, então capital do Império. Publicada na revista Vida Fluminense, em 1869, a história de Nhô Quim apresenta algumas características que fazem dela uma das histórias em quadrinhos mais antigas do mundo. Agosini já havia publicado breves historietas ilustradas, mesmo quando ainda atuava em São Paulo, no Cabrião. Foram muitas ao longo de sua carreira, inclusive As aventuras de Zé Caipora (1883), série publicada numa das principais publicações do século XIX, a Revista Illustrada, dirigida pelo próprio caricaturista entre 1876 e 1888.
É bem possível que Agostini tenha recebido inspiração de outros autores para realizar seus experimentos quadrinísticos. Tendo residido na França, ainda que por um curto tempo, não é difícil supor que ele tenha feito contato com as obras de Töpffer, por exemplo. Afinal, quando o italiano era apenas um bambino, o suíço não só já havia publicado diversas histórias ilustradas como já teorizava aquela novidade, contrapondo-a à literatura: "Há duas maneiras de escrever histórias: uma em capítulos, linhas e palavras, e a isso chamamos 'literatura'; ou, alternativamente, por uma sucessão de ilustrações, a que chamamos 'história ilustrada'".
Quem quiser, pode ler mais sobre Ângelo Agostini, pois já foram feitas várias menções a ele neste blog.

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